Seca histórica no Cerrado preocupa agricultores da região

A estiagem prolongada que atinge o Cerrado brasileiro desde o início do ano começa a deixar marcas profundas no cotidiano dos agricultores da região central do país. Em municípios do interior de Goiás e Mato Grosso, produtores relatam que esta é a seca mais severa em mais de uma década.

"Nunca vi nada assim em trinta anos de lavoura", diz João Batista Ferreira, 58 anos, que cultiva soja e milho em uma propriedade de 400 hectares próxima a Jataí. "Os reservatórios estão no nível mais baixo que já vi. A gente reza e espera."

Segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a precipitação acumulada nos últimos seis meses ficou entre 40% e 60% abaixo da média histórica para a região. O fenômeno climático é agravado pelo desmatamento crescente nas bordas do bioma, que reduz a umidade do ar e altera os padrões de chuva locais.

A situação preocupa não apenas os agricultores, mas também os gestores de recursos hídricos. O nível do Rio Paranaíba, que abastece parte da região, caiu para patamares críticos, afetando o fornecimento de água em algumas cidades menores.

Pesquisadores da Universidade Federal de Goiás acompanham o fenômeno de perto. A professora Ana Claudia Rezende, do departamento de ciências ambientais, explica que o Cerrado já perdeu mais de 50% de sua cobertura original, o que compromete sua capacidade de regular o ciclo das chuvas.

"O Cerrado é o berço das águas do Brasil. Quando degradamos esse bioma, estamos comprometendo a disponibilidade hídrica de boa parte do país", afirma a pesquisadora.

O governo estadual de Goiás anunciou um pacote emergencial de R$ 120 milhões para apoiar os agricultores afetados, incluindo linhas de crédito facilitadas e assistência técnica. Mas muitos produtores dizem que o auxílio chega tarde e em valor insuficiente para cobrir as perdas já acumuladas.

Enquanto isso, as previsões meteorológicas para as próximas semanas não trazem alívio. Os modelos climáticos indicam que a estiagem deve se prolongar pelo menos até o final de junho, quando normalmente começa o período de transição para a estação chuvosa.

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Marcos Teixeira
Jornalista especializado em meio ambiente e desenvolvimento regional.